segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Poema estancado

   Eu não sei. Não há como saber. Não há diálogo aqui, não há poesia a interpretar ou intuição que me norteie sobre o que acontece em você. 
   Tudo bem, acho que sei, mas estou ignorando a razão e as circunstancias que te trazem a mim. Você precisa de colo e refúgio, carinho e descanso num abraço, uma bebida e uma canção intensa que lhe faça se sentir vivo outra vez. 
   Sim, é o que lhe ofereço, pois nada mais em mim você conhece. Você nem ao menos me ouve realmente. Apenas fecha seus olhos e sente seu sangue esgotado em suas veias em meio a transfusões de um amor desgastado em rotinas. Enquanto te olho desenho em minha mente e em meu desejo os seus traços.
   Tudo em mim convulsa. 
   Metade de mim me impulsiona ao seu beijo
   Metade repulsa.
  Se elas estivessem claras, cada qual em sua parte, seria uma escolha justa e tranquila. Mas essas metades se entranham, se estranham, comungam em cada parte de mim, induzidas a baterem forte sob os instrumentos de uma canção.
   E paro. 
   E suspiro. 
   Penso em correr (me sinto correndo!) mas ainda estou aqui. 
   Intacta. 
   Em transe.
   Submersa em pequenas metades. Metades entranhadas que não me tiram daqui.
   E se elas não o fazem, porque não você?

   Porque você provavelmente não me vê.

Ana Sabbag


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Pequena mortal

Com a inocência de quem oferece seu primeiro beijo, transitei por uma aventura inconsequente. Na ilusão de que manteria meus pés no chão, me vi intensa, me pus feliz.
Ousei desafiar meu coração, o julguei imortal, intocável. Me fiz potente e então saltei em direção ao precipício. Sentí a queda, me desfiz em dor. Dor muda. Aguda.
Sentí a boca amarga pelo beijo que se foi, calando meu sorriso, tornando-me mortal.
E nessa dor ainda me calo. Torno-me silenciosa, na expectativa de manter intacto meu orgulho.
Orgulho inútil, mas protetor.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Trilhas

Quando Lucas se esquecera
Do caminho a ser seguido
Passou a comandar o destino
E não mais ser perseguido

A estrada era nova
Mas não se parecia perdido
Pois por onde passava
Já lhe parecia vivido

Como a terra trazia frutos
Pensou em cultivar abrigo
Como a terra não se fazia telha
Riu ao pensar em jazigo

Porém a morte nao lhe esperava
Tão pouco lhe teria suprido
Afinal, quanto mais passos ele dava
Mais tudo fazia sentido.

21 de janeiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Vitrine


A minha democracia
Por vezes causa disritmia
Que por tão pouca alegria
Provoca o teu penar

Não me culpe por ela
Que apenas por ser bela
Me induz à uma qualquer cidadela 
Apenas à dançar 

Não sou exatamente aquilo por quem me declama
Sou apenas uma dama
Que por reflexo de uma acesa chama
Acende teu paladar


Ana Sabbag

domingo, 6 de julho de 2014

Deixe-me

Deixe-me toca-lo com minhas palavras
pois minhas mãos jazem imóveis
pelo tempo e a distância
que nos tomou o ar.

Deixe que essas letras, tensas e desconexas
lhe façam brilhar os olhos
(Ah esses olhos) de cura,  aventura
que arrepia  minh'alma e pêlos e cabelos
que não podes hoje massagear.

Deixe que lhe toque a ponta dos dedos
com alguma rima ou sonoridade
e quem sabe essa façanha lhe faça lembrar
de outrora em que pele e pêlos se rinhavam
num só corpo e todos os sentidos
se podiam apalpar

Deixe-me tocá-lo com a música
que nos causa disritmia
transforma a ingênua companhia
numa louca noite pra se amar...



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O verbo



Se o carnaval acabar
Se você chorar
Se a luz cegar
Se Deixe fluir!

Se a lua ocultar
Se o sol não voltar
Se a vida falhar
Se deixe sorrir!

Se o amor faltar
Se a palavra magoar 
Se a felicidade tardar
Se deixe seguir!

Se o coração pulsar
Se o sonho chegar
Se o som te encantar
Se deixe sentir!

Ana sabbag

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Foto instantânea


Se tirássemos uma foto instantânea
Meu destino e eu
Pareceria um bang bang de cowboy
Talvez eu seja sua vítima
Ou também um anti-herói

Se fosse foto colorida
o brilho entre nós se confundiria
Se fosse em preto e branco
Ou se não tivesse foco
Veria-se a sombra que nos impedia

Impedia ambas escolhas
Para um caminho florido
Mas se olharmos bem fundo
Só haveria a pergunta:
Quem de nós faria deveras sentido?

Ana sabbag